DEPENDE DE NÓS

*Por: Artur Chinelato

        A frase “Le Brésil n’est pas um pays sérieux” (O Brasil não
é um país sério) foi atribuída ao presidente francês Charles de Gaulle, quando
surgiu uma crise política entre Brasil e França, nos anos 60. A apreensão de
pesqueiros franceses que capturavam lagostas na costa brasileira teria irritado
de Gaulle e o levado a dizer que o Brasil não era um país. Segundo a versão
corrente, o embaixador do Brasil em Paris, teria acrescentado o adjetivo sério,
para amenizar a situação. A crise foi resolvida, mas o mal-estar sempre ficou
apesar do general de Gaulle negar até a sua morte ter dito tal frase. O
surpreendente foi que a frase caiu no gosto popular e os próprios brasileiros a
adotaram como uma crítica a todo deslize que aconteça em qualquer ramo de
atividade.

Artur

         Na produção leiteira essa frase pode ser utilizada em inúmeras
situações, desde as empresas fabricantes de insumos, equipamentos e embalagens,
passando pela conduta do produtor, pela assistência técnica particular e oficial,
pelas escolas técnicas e de ensino superior ligadas às ciências agrárias, pelas
empresas e institutos de pesquisa, pelas associações, pelos sindicatos, pelas cooperativas,
pelos laticínios e indústrias, por atacadistas, por varejistas e pelos líderes e
políticos do setor.

         Verifique na pequena lista abaixo, se você já se deparou com
algumas situações descritas. Cada alternativa equivale a um ponto. Some e veja
o resultado no final.

  1. empresas
         fornecedoras de insumos e equipamentos que fazem de tudo para vender seus
         produtos aos produtores, mesmo que eles não necessitem desses produtos.
  2. produtores
         inocentes demais ou “espertos” demais que embarcam em qualquer ladainha de
         vendedor acreditando que aquele insumo resolverá todos os seus problemas.
  3. produtor
         que compra sal mineral para ficar com o “baldinho” quando o produto
         acabar.
  4. técnicos
         que recomendam insumos, equipamentos e técnicas (no popular, tecnologias)
         por interesses inconfessáveis.
  5. produtores
         que querem que suas vacas produzam leite e dêem lucro oferecendo a elas
         capim passado de baixa qualidade e muito concentrado, achando que vaca é
         igual a porco.
  6. produtores
         que amarram suas vacas na beira da estrada para pastejarem ao longo do dia
         sem água ou sombra.
  7. produtores
         que acrescentam água e outros materiais no leite transformando-se em
         verdadeiros alquimistas.
  8. produtores
         reclamando do preço do litro de leite sem saber qual porcentagem da renda
         bruta está comprometida para pagamento das despesas de custeio (despesas
         do dia-a-dia).
  9. reuniões
         de cooperativas e sindicatos onde comparecem no máximo 30% dos associados,
         isso se houver um churrasquinho no final.
  10. produtores
         que não pagam a contribuição sindical e querem ter voz na democracia.
  11. amostragem
         do leite feita sem nenhuma higiene por parte do motorista do caminhão
         tanque.
  12. mangueira
         de coleta do leite do caminhão tanque suja e empoeirada.
  13. laticínio
         que na época de falta de leite aceita qualquer líquido branco como leite e
         no momento de sobra do produto, aplica os rigores da legislação para
         desclassificá-lo.
  14. laticínio
         que faz rodízio de desclassificação do leite entre seus fornecedores para
         ganhar mais. Os produtores não reclamam, pois afinal foi só um dia que o
         leite foi desclassificado.
  15. cooperativa
         que atua como sanguessuga do produtor usando a palavra cooperativismo como
         escudo.
  16. embalagens
         de leite que custam o olho da cara.
  17. atacadistas
         e varejistas que ficam com a maior fatia do bolo.
  18. dirigentes
         de todo tipo de instituições que se perpetuam no poder sendo retirados
         apenas pela providência divina.
  19. escolas
         de ensino técnico, abandonadas e que não produzem um pé de alface, quanto
         mais profissionais para o setor.
  20. alunos
         que se preocupam mais com a diversão do que com as aulas. A maior
         dificuldade nessas instituições é conseguir estacionar o carro. Se o aluno
         conseguir, terá dado um grande passo para se formar.
  21. faculdades
         e universidades que adotam na grade de aulas, disciplinas que não terão
         nenhuma serventia quando os alunos se formarem.
  22. professores
         que nunca viram uma vaca pela frente dando aulas sobre bovinocultura
         leiteira.
  23. universidade
         ou instituição de pesquisa que se preocupam com o número de trabalhos
         publicados e não com a qualidade destes.
  24. pesquisas
         que não levarão a lugar algum, apenas a uma progressão salarial do
         pesquisador.
  25. empresas
         de assistência técnica tanto oficial como privada que lançam programas
         cometas, só para fazer bonito no discurso, não tendo compromisso com a continuidade.
         O produtor que embarca nessa “cauda de cometa” está seriamente ameaçado de
         ficar à deriva no espaço.
  26. instituições
         que obrigam um técnico a atender mais de 100 famílias em assentamentos,
         quando o limite encontra-se entre 25 a 30 propriedades, dependendo das
         distâncias entre elas e do perfil do técnico.
  27. políticos
         e suas leis que obrigam as cooperativas e laticínios a imprimir nas
         caixinhas de leite uma frase infeliz como: “AVISO IMPORTANTE: Este produto
         não deve ser usado para alimentar crianças menores de 1 (um) ano de idade,
         a não ser por indicação expressa de médico ou nutricionista”.
  28. governantes
         que não dão condição de trabalho (salário, veículo e combustível) às empresas
         de assistência técnica e extensão rural.
  29. governantes
         que não cobram resultados efetivos de seus subordinados e com isso não
         promovem uma seleção em seus quadros.
  30. governantes
         que afirmam em seus discursos que a agropecuária será um dos pilares de seu
         governo, mas que na prática...

Resultado:

Se você assinalou 15 ou
mais itens, seja bem-vindo ao Brasil. Você será um personagem importante para
que mudemos esse país. Faça sua parte bem feita que você já estará fazendo
muito.

Se você assinalou entre 7
e 14 itens, você está indeciso sobre onde mora: Brasil ou países Nórdicos.

Se você assinalou 6
itens ou menos, você é um ET ou uma Pollyanna (romance de Eleanor Porter
publicado em 1913 que narra as atitudes sempre otimistas de uma jovem órfã).

         É evidente que existem muitas empresas, técnicos, escolas,
instituições, líderes do setor e políticos sérios, que precisam passar a ser
referência, para que a frase atribuída ao general de Gaulle seja apenas um
registro folclórico. Isso dependerá de cada um de nós.

 

*ARTUR CHINELATO DE CAMARGO

EMBRAPA - Pecuária
Sudeste

São Carlos, SP

(16) 3411-5630

artur@cppse.embrapa.br